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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

BIOGRAFIA DO ILUSTRE SANTANENSE GENERAL FLORES DA CUNHA.


Biografia - General Flores da Cunha

José Antônio Flores da Cunha nasceu em Santana do Livramento em 5 de março de 1880, na região da campanha do Estado do Rio Grande do Sul, fronteira com a República Oriental do Uruguai.Terceiro de uma descendência de treze filhos do casal de estancieiros Miguel Luiz da Cunha – Evarista Flores da Cunha. De todos, José Antônio foi o que adquiriu maior notoriedade. O seu irmão mais velho, Francisco Flores da Cunha, farmacêutico e estancieiro, também se destacou, sendo Intendente Municipal de Quarai e Santana do Livramento, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador da República e chefe do Partido Republicano Rio-Grandense – PRR em sua terra natal. O mais novo dos Flores da Cunha, Guilherme, agrônomo, morreu no combate da Ponte do Ibiraipuitã, em Alegrete, durante a Revolução de 1923, marcando o seu nome na história rio-grandense.[1]
A estância Vista Alegre onde nasceu Flores da Cunha, hoje chamada São Miguel, estava situada no antigo 7º distrito, nos limites divisórios de Santana do Livramento com o município de Quarai. A estância fazia parte da antiga sesmaria da Boa Vista, que fora doada pelo Imperador ao seu bisavô, Coronel José Antônio Martins, em retribuição aos relevantes serviços prestados durante as lutas cisplatinas. Pelo lado paterno, Flores da Cunha descendia de Joaquim Luiz da Cunha, cujo primogênito, Miguel Luiz, desposou a filha do Coronel José Antônio Martins e de Rosa Violante de Vasconcelos, Úrsula Martins da Cunha, que foi dama do Paço Imperial e que herdou parte da sesmaria da Boa Vista. Dessa mesma ascendência provém o Coronel José Antônio Martins (cosseca Martins), chefe político liberal do Império em Santana do Livramento e também Rivadávia Corrêa, Ministro, Deputado, Senador da República, Prefeito do Distrito Federal e autor de notável Lei de Reforma do Ensino.[2]
Pelo lado materno, provinha de Francisco Flores de Oliveira, fazendeiro no Itaquatiá (2º Subdistrito e Município de Santana do Livramento), de descendência açoriana, o que explica seus cabelos loiros e olhos azuis de muitos membros da família Flores da Cunha. Os seus ancestrais eram naturais de Sorocaba, que vieram para o Sul e cujas origens remontavam a Paraguassu, filha de Tibiriçá, fundador de Santos e ligados à ilustre família daquele Estado, os Toledo Piazza.
Os Cunha, segundo Paulo Xavier, penetraram no Continente na metade do século 18 unindo-se a descendentes lagunistas, pioneiros na fixação de estância no litoral norte e na própria área do surgimento da Capital. Os Martins, igualmente vindos do Reino (procedentes de Celourico de Bastos, Guimarães), madrugaram para o encontro em Santana do Livramento, incorporando também linhagens daqueles açorianos que muito cedo deixaram suas “datas” de povoadores modestos para se transformarem em grandes fazendeiros nos campos da Depressão Central, ao longo dos caminhos abertos para a fronteira. Os Flores da Cunha lideravam a corrente quase puramente açoriana de povoadores que estanciaram nos arredores de Porto Alegre, antes de iniciarem sua marcha para os campos do pampa gaúcho. Mas entre seus aliados despontam duas correntes paulistas, nitidamente ligadas às tropeadas: as de Maciel Barbosa e Mendes de Almeida, representante das velhas famílias de sertanistas.
Os Corrêa, finalmente, como observa Paulo Xavier, expressam a corrente paulista de brasileiros de quatrocentos anos com feitos no sertanismo sul-americano. São também dos primeiros que, pelo planalto, desde São Paulo até as barrancas do Uruguai, foram plantando cidades em torno dos fogões que acenderam nos muitos pousos de suas sofridas tropeadas. Radicaram-se no sul (em Canguçu) de onde se deslocaram para o encontro marcado em Santana do Livramento. Soma dessa tradição, José Antônio Flores da Cunha cresceu em pleno pampa e não foi difícil transformar-se nessa figura carismática, a quem era impossível ficar indiferente. Erico Veríssimo disse que Flores da Cunha era um homem admirado pelos inimigos, mas nunca uma figura inexpressiva. [3]
Viveu sua primeira infância na estância (latifúndio de seu pai), montando em cavalo e participando das lides campeiras com os demais peões. Menino travesso, de temperamento difícil, que o levara muitas vezes a receber castigos do pai. Um dia chegou a apedrejar e ferir um irmão de criação, mas escapou impune graças à solidariedade dos irmãos, esconderem o fato do conhecimento do pai. Desde cedo, porém, começou a mostrar inteligência e gosto pela leitura, despertado pela mãe, dona Evarista, que o alfabetizou. Paralelamente foi aprendendo com ela o francês, aprimorado por uma professora uruguaia de Rivera, cidade separada de Santana de Livramento por uma avenida. Menino ainda, depois adolescente, passou a ler todos os livros franceses que a mãe lhe entregava e que o tornaram um grande conhecedor das obras de Alexandre Dumas, Balzac, Emile Zola e tantos outros, de poetas como Rimbaud e Verlaine, cujos poemas ele adorava declamar. [4] 

Como aluno, Flores da Cunha destacou-se na atividade política em entidades estudantis do que nas notas conquistadas em exames. Realizou os cursos primário e secundário no Colégio 15 de Novembro, de Santana do Livramento e aos 15 anos foi fazer os então chamados preparatórios em São Paulo, onde morava seu tio Perereca. Regressando ao Sul, ingressou na Escola de Engenharia, de Porto Alegre, mas insatisfeito com o currículo que não o agradava, desistiu, para insatisfação do pai, que o obrigou a voltar para a estância de Santana e lá trabalhar com os demais empregados. No livro Flores da Cunha de Corpo Inteiro (2007) o escritor e jornalista rio-grandense Lauro Schirmer, lembra: “A maneira encontrada por Flores da Cunha para protestar contra esse tratamento paterno foi ir diariamente para lavoura vestindo ceroulas, fraque, cartola e luvas e assim conduzir o arado puxado por uma parelha de bois. O protesto acabou fazendo com que Seu Miguel concordasse com a proposta do filho de voltar a São Paulo, para cursar Direito. Os primeiros quatro anos foram cumpridos na Paulicéia, o último, porém, foi concluído no Rio de Janeiro, em 1903, quando se formou bacharel em Direito”.[5] 
Durante sua adolescência transcorreu a Revolução Federalista de 1893, quando as forças maragatas invadiram o Rio Grande do Sul, ocasião que Santana do Livramento, sua terra natal, permaneceu envolvida no conflito. As lides campeiras e as arremetidas bélicas que conheceu ainda jovem e muitas das quais presenciou, como a retomada de Santana do Livramento pela legalidade, a 19 de junho de 1892, plasmaram o seu caráter, influenciando decisivamente na sua formação de legítimo homem da campanha, franco, leal, impulsivo e amável, violento e emotivo.
Falando à revista A Noite, do Rio de Janeiro, em 1953, Flores da Cunha assim se referiu a esse episódio:
Tinha eu nesse tempo doze anos de idade. Estava no colégio e tive de passar para a fronteiriça cidade Uruguaiana de Rivera, desde a antevéspera do ataque à cidade.
Em Rivera me abriguei na casa de um tio, cunhado de meu pai, Guilherme Dias, e pude assistir, no terreno que separa as duas cidades, desde a madrugada, ao combate crudelíssimo que se feriu. Ora eram as forças que vinham do lado do Itaquatiá, comandadas pelo meu tio-avô, Cosseca Martins, avô do General Mendonça Lima, e de quem tenho o nome de José Antônio, ora eram as forças republicanas que atacavam do lado oeste eram as forças republicanas que atacavam do lado oeste da cidade, comandadas pelo Coronel Ataliba José Gomes, Filho do Barão déb Itaquatiá, de cujas forças era vanguardeiro o Capitão João Francisco Pereira de Souza. O choque foi tremendo na linha divisória e o próprio chefe do governo pagou com a vida, lanceado no interior da cidade, Antônio José de Vargas, que tinha seu domicílio junto ao colégio onde eu era interno e, portanto, assiste a seu velório. Menino de doze anos, de origem castilhista e republicano, fui, no nevoeiro daquela madrugada, das primeiras pessoas a atravessarem a linha divisória de Rivera para Santana do Livramento. (REVISTA A NOITE apud CAGGIANO 1997, p.14).


Sua aparição como homem público se deu com a nomeação, em 1903, para titular da Delegacia de Polícia do bairro da Saúde, na capital da República, conhecido como foco de delinqüentes. O jovem advogado, logo nos primeiros tempos, garantiu para a população da zona a tão desejada – e nunca conseguida – ordem pública, o que lhe trouxera uma posição destacada. Após cerca de um ano, em virtude de um acidente com um estudante, renunciou ao cargo e radicou-se em Santana do Livramento. Segundo o mesmo autor: “Advogado bem-sucedido, Flores da Cunha começou atuando em Santana do livramento, Uruguaiana, Alegrete, São Borja e outras cidades da Fronteira Oeste do Rio Grande. Em Uruguaiana e Alegrete trabalhou com Osvaldo Aranha, seu companheiro inseparável desde a mocidade. Em São Borja chegou a dividir escritório com Getúlio Vargas. Como advogado ganhou muito dinheiro – praticamente todos os bens por ele adquiridos foram com os ganhos na advocacia – cobrando muito de quem podia e atendendo de graça clientes despossuídos”.
No tribunal do júri, só atuava na defesa, fossem quais fossem os crimes dos réus. Uma das poucas vezes em que se negou a defender um criminoso foi no caso do irmão de Getúlio Vargas, Viriato Vargas, que mandou matar friamente um conhecido farmacêutico em São Borja. Para desgosto de Getúlio, cujo irmão tinha se refugiado na Argentina, Flores da Cunha não aceitou o apelo para defender Viriato Vargas. (Provavelmente começou aí o rompimento que foi crescendo em Getúlio, com o passar dos anos, contra Flores da Cunha.) Filho de tradicional família republicana, Flores da Cunha adquiriu gosto pela política desde cedo, na casa dos pais, que eram chimangos exaltados. Não bastasse, os Flores seguiram tendo relações com o chefe maragato Joaquim Francisco de Assis Brasil, que era casado com uma irmã de Julio de Castilhos, mas deixara o Partido Republicano. Querendo, continuar o relacionamento amigável com Flores da Cunha, foi visitar Miguel e Evarista Flores da Cunha na Estância São Miguel, para manifestar-lhes esse propósito. Pois, dona Evarista não teve dúvidas nem meias palavras, foi logo dizendo a Assis Brasil que este não mais lhe merecia consideração, depois de ter abandonado o partido de seu ex-cunhado Julio de Castilhos. Depois de muitos anos é que Assis Brasil e os Flores da Cunha voltaram a conviver, juntos na Frente Única de 1930.[6] 
Em 1909, Flores da Cunha foi eleito Deputado Estadual pelo 4º Distrito Eleitoral, para a legislatura de 1902-1912. Em fins de 1910, quando cumpria o seu primeiro mandato parlamentar, afastou-se da Assembléia Legislativa para exercer o cargo de Delegado Auxiliar no Rio de Janeiro, a convite de seu primo, Dr. Rivadávia da Cunha Corrêa, também santanense, e então Ministro da Justiça no governo de Hermes da Fonseca. Para as eleições que se realizaram em 1912, Pinheiro Machado, que dele se tornara amigo, desejava vê-lo na chapa dos candidatos à Câmara Federal pelo Rio Grande do Sul. Mas existindo grandes divergências entre as famílias Flores da Cunha e Pereira de Souza, optou por incluí-lo entre os candidatos pelo estado do Ceará. Em 1910 as duas famílias envolveram-se no chamado “conflito do Clube Pinheiro Machado”, em Santana do Livramento, no qual foram mortos Pedro Nepomuceno Pereira e Bernardino Pereira, irmão do coronel João Francisco Pereira de Souza. Um incidente que teve início a partir de uma conferência da escritora espanhola Belen de Sárraga, dividiu católicos e livre-pensadores, ocasionando a tragédia, da qual os Flores da Cunha chegaram a ser responsabilizados.
Flores da Cunha, inicialmente, recusou essa solução encontrada por Pinheiro Machado para não criar áreas de atrito no Partido Republicano Rio-Grandense, onde as duas famílias ocupavam papel destacado. Mas, por disciplina política, acabou cedendo e concorrendo por um Estado que nem conhecia (Ceará). Concluído seu primeiro mandato parlamentar na Câmara, retornou ao Rio Grande do Sul, ocasião em que foi convidado pelo Presidente Borges de Medeiros para o cargo de Intendente Provisório de Uruguaiana. Existia, nessa época, naquele município, uma profunda cisão nas fileiras republicanas. O PRR estava dividido entre as facções lideradas pelo dr. Sérgio Ulrich de Oliveira e Antônio Monteiro, respectivamente. Flores da Cunha revelou-se, nesse momento, um grande e hábil mediador, conseguindo resolver, satisfatoriamente, aquele impasse político. Além disso, fez uma excelente administração. Durante sua gestão à frente dos destinos de Uruguaiana foi eleito, em 1917, Deputado Federal, assumindo assim o primeiro mandato como representante de seu Estado natal.[7]
Em 1919, um expressivo grupo de amigos e correligionários promoveram sua candidatura à Intendência Municipal de Uruguaiana, convite ao qual não poderia recusar-se. Assim sendo, em 1920, renunciou à sua cadeira na Câmara Federal e foi enfrentar uma eleição em nível municipal, indo contra a vontade de Borges de Medeiros, Presidente do Estado e chefe do Partido Republicano. Venceu o pleito com uma votação esmagadora e assumiu a intendência de Uruguaiana a 27 de outubro do mesmo ano, para o quadriênio de 1920-1924.
Anos depois, Flores da Cunha disse:

Na ocasião tive de trocar minha cadeira de Deputado – o que quer dizer três ou quatro anos de mandato – por uma Prefeitura falida, onde fui encontrar os policiais com calçado amarelo num pé e sapato preto no outro, uma Prefeitura para a qual não se fiava um carretel de linha. (Depoimento para a Revista do Congresso, de 05.10.1948).

Desprendido dos bens matérias na vida privada, revelou-se, na administração pública, preocupação pelo equilíbrio dos orçamentos, pela exata aplicação das rendas públicas, pela contenção das despesas em obras supérfluas e adiáveis. Nisso seguiu a risca o exemplo da política orçamentária de Borges de Medeiros. A sua segunda gestão à frente dos destinos de Uruguaiana, apesar de prejudicada pela Revolução de 1923, foi marcada por uma série de realizações que lhe valeram o reconhecimento até dos próprios adversários, traduzido pelo título de “Cidadão Honorário” de Uruguaiana, outorgado pela comunidade. Em 1922, quando todos pensavam que haveria uma modificação no quadro político do Rio Grande do Sul, com o aparecimento de um novo candidato ao Partido Republicano, para enfrentar o oposicionista dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil, Borges de Medeiros, que vinha de sucessivas reeleições, apresentou-se novamente. Fato que desgostou até seus próprios correligionários. O resultado das urnas deixou claras dúvidas, mas, mesmo assim, o candidato situacionista foi proclamado vencedor.
De acordo ao que foi relatado pelo autor estadunidense Carlos Cortez:

“Hoje, muitos ex-republicanos ‘admitem’ que, na verdade, Borges havia, de fato perdido a eleição. Segundo versão popular, a comissão de Vargas teria ido dar ciência ao governador da desastrada derrota, mas antes que pudessem falar, Borges teria iniciado um agradecimento efusivo por terem ido pessoalmente parabenizá-lo por sua vitória.”[8] 

Alegando que a eleição fora fraudulenta, a oposição decidiu tentar corrigir os resultados pela força. No dia da posse de Borges de Medeiros, em Janeiro 1923, uma rebelião eclodiu em todo o estado. Federalistas vingativos, democratas idealistas e libertários civis uniram-se com uma meta em comum: pôr fim ao longo reinado de Borges de Medeiros e destruir a constituição de Julio de Castilhos.[9]  No entanto, alastrou-se o movimento rebelde que, em março de 1923, todo o Estado se encontrava convulsionado. Com a polícia municipal de Uruguaiana entre outros elementos, o Intendente Municipal Flores da Cunha criou a unidade de combate, à qual deu o nome sonoro de Fronteiriço da República. Com essa força repeliu o ataque levado àquela cidade pelos numerosos contingentes comandados pelo caudilho Honório Lemes.
Nessa oportunidade, Flores da Cunha ajudado pelos civis republicanos Álvaro da Costa e Silva, Flodoardo M. da Silva, Osvaldo Aranha e Laurindo Ramos. “No início da revolução, comandou a vanguarda da Brigada do Oeste, do Coronel Claudino Nunes Pereira, constituída dos Fronteiros da República, do 5º Corpo Provisório de Osvaldo Aranha e de um contingente do Coronel Nepomuceno Saraiva, filho do grande caudilho oriental Aparício Saraiva que faleceu em Santana do Livramento depois da batalha de Massoller, em 1904”. Com o afastamento do Coronel Claudino, após o combate de Santa Maria Chico (Dom Pedrito), travado a 15 de maio, Flores da Cunha assumiu o comando da Brigada do Oeste.
Pouco meses depois do “Pacto de Pedras Altas”, em virtude da Revolução de 1924, em São Paulo, o Estado voltou a ser palco do levante do 5º Regimento da Cavalaria, sediado em Uruguaiana. Já então, a serviço do governo federal e fazendo a vanguarda do destacamento do General Firmino de Paula, integrado pelo Exército, Brigada Militar e Forças Auxiliares, Flores da Cunha surpreendeu Honório Lemes, em Guaçu-boi, ocorrendo sua derrota. Esse feito contribuiu para que lhe fosse conferida, pelo Presidente da República, Artur Bernardes (1922-1926), a patente de General-de-Brigada do Exército Brasileiro. Em 29 de setembro de 1925, Honório Lemes, que se encontrava emigrado na República Oriental do Uruguai, invadiu novamente o Rio Grande do Sul, pela fronteira de Santana do Livramento. Em 8 de outubro, após cercar o chefe revolucionário entre o rio Ibicuí da Conceição, que estava cheio em virtude das fortes chuvas, e o Banhado das Marrecas, Flores da Cunha prendeu- o.
Não houve combate. Sem alternativa, o caudilho levantou uma bandeira branca. Após receber a promessa de que teria garantida sua vida e a de seus homens, entregou-se. Flores da Cunha contou mais tarde: “A prisão dele foi um momento brutal, estava esperando faca e eu abracei-o. Ele arrancou do resolver e me entregou. Eu disse: Guarde o seu resolver”. Conta-se a propósito que, no ato da prisão de Honório, este perguntou a Flores da Cunha: “Como prefere que eu o trate, de doutor ou general?” Flores da Cunha respondeu, para não humilhá-lo ainda mais: “Sou bacharel em Direito. Podes me tratar apenas de doutor.” O prisioneiro então retrucou: “É mesmo, porque general até um índio rude como eu pode ser”. Magnânimo e generoso com o adversário vencido, nunca permitiu represálias, nem mesmo, quando perdeu o irmão no combate da ponte do rio Ibiraipuitã. Aliás, ele sempre reivindicou para si a glória de ter banido as degolas de nossas lutas fratricidas.[10]
Em 28 de novembro de 1930, imediatamente após a revolução, Getúlio Vargas designou José Antônio Flores da Cunha como interventor do Rio Grande do Sul, preterindo a João Neves da Fontoura (1887-1963), vice-presidente no estado. Flores da Cunha governaria o Rio grande do Sul, primeiro como interventor, até abril de 1935 e, a seguir, como governador eleito indiretamente pela Assembléia Constituinte rio-grandense, até 17 de outubro de 1937, quando renunciou e se exilou no Uruguai, em razão de sua fracassada oposição a Getúlio Vargas e ao golpe do Estado Novo, em defesa da autonomia política e econômica rio-grandense. [11]  Terminada a Revolução de 30, o quadro econômico e financeiro do estado era desesperador. A dívida externa do Rio Grande do Sul, ao findar 1930, era de US$ 33 milhões, mas o RS conseguiria, com Flores da Cunha, tornar-se o único Estado que, por seus próprios meios, resgatou os bônus emitidos na revolução. Neste sentido, a autora Maria Helena de Castro afirma: “na articulação revolucionária de 1930 o Estado, além de ter servido de base territorial de onde partiram os revolucionários, forneceu os recursos políticos, financeiros e militares que viabilizaram a conspiração armada”.(apud CASTRO,1980, pp.43-44).
Dez dias depois da posse, Flores da Cunha recebeu relatório sobre a grave situação do Banco Pelotense: estava às portas da falência, sem receber ajuda do Banco do Brasil. A encampação do Pelotense pelo hoje Banrisul foi a única saída para estancar a crise que começava a ameaçar também outros bancos, como o da província e o Nacional do Comércio. E com o lançamento bem-sucedido de bônus do tesouro se iniciava a recuperação das finanças do Estado. Em agosto de 1931, Flores da Cunha criou a bolsa de fundos Públicos (Bolsa de Valores) e em outubro começou a operar a loteria Estadual, nova fonte de recursos para o Tesouro. No início de 1936, o governador gaúcho pôde comemorar a aquisição de US$ 13 milhões em títulos da dívida externa, desafogando as finanças estaduais.[12]
Como interventor e, a seguir, como governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha desenvolveu um ambicioso plano de planejamento estrutural da economia rio-grandense, apoiando a ampliação e circulação das relações mercantil-capitalistas e a modernização da produção pastoril charqueadora. Para tal criou, o Instituto Sul-Rio-Grandense de Carnes (1934), um Entreposto Frigorífico (1935), um Matadouro Modelo (1936), um Entreposto de Leite (1935), o Instituto da Banha (1936), o Instituto Sul-Rio-Grandense do Arroz (1937). Promoveu, igualmente, os Institutos do Vinho, Mate, Pinho, etc. Também em 1936 organizou a Secretaria da Agricultura, com a responsabilidade sobre o setor agrícola e pecuário regional.
Em 1935, Flores da Cunha criou a Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio. Seguindo a tradicional obra castilhista-borgista, apoiou o comércio e a indústria e diminuiu os impostos de exportação. Superando a visão econômica de Borges de Medeiros, não teve medo de emitir papel-moeda e endividar o Estado para apoiar iniciativas produtivas de grande fôlego. Negociou seu apoio a Getúlio Vargas quando da crise de 1932, para obter recursos para o Rio Grande do Sul. Em 1930, Flores da Cunha abriu o porto da capital à navegação interoceânica e desenvolveu a rede ferroviária e rodoviária, que ganhou as primeiras coberturas de macadame e cimento. Em 1936, o 4º Congresso Nacional de Estradas de Rodagens caracterizou o sistema rodoviário sulino como um dos mais precários do Brasil, com pouco mais de 400 Km de estradas em funcionamento durante todo o ano. Até então, o Estado Regional investira quase exclusivamente nos meios ferroviários de transportes. Em 1937, Flores da Cunha sancionou lei criando o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), hoje sucateado pelo pseudo governo de Yeda Crusius. [13] 
Em 1938, após a renuncia de Flores da Cunha, seria aprovado ambicioso Plano Rodoviário Estadual, com meta inicial de 4.500 km de estradas. De 1938 a 1943, o plano absorveu 22% das receitas tributárias sulinas, conquistando para o Rio Grande do Sul o segundo lugar no sistema rodoviário nacional. No mínimo, de 1932 a 1934, Flores da Cunha concedeu subvenções para Varig. Para mitigar o alto valor mercante rio-grandense, dissolvida por Getúlio Vargas após 1937, que incorporou seus navios ao Lloyd Brasileiro. Flores da Cunha ampliou a rede de escolas públicas, com destaque para as regiões coloniais alemã, italiana e polonesa. Em 1934, criou a Universidade de Porto Alegre, formada pelas faculdades de Medicina e Direito, as Escolas de Engenharia, Agronomia e o Instituto de Belas Artes, tornaria mais tarde na UFRGS.
Em 1935, a Faculdade de Educação e Saúde Pública teve como primeiro titular o historiador Othelo Rosa, ligado ao PRR. Em 8 de agosto de 1931, instituiu o Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul (Ipergs) e reduziu o tempo de trabalho do funcionário público necessário à aposentadoria de trinta e cinco para trinta anos. Em 1935, criou a Secretaria de Educação e Saúde pública e, no ano seguinte, transformou a Direção Geral de Estatística no Departamento Estadual de Estatística. Em 1935, durante o seu governo, realizou-se a grande exposição comemorativa do primeiro centenário da Guerra Farroupilha. A ruptura de Getúlio Vargas com Flores da Cunha teria ocorrido durante a viagem do presidente ao Rio Grande do Sul para participar dessa celebração.
Flores da Cunha, como se pode constatar atuou em todos os setores da administração, com uma larga visão do futuro, atacando os pontos básicos, como educação, saúde, transporte e agropecuária. Batista Luzardo, João Neves, Lindolfo Collor e Assis Brasil romperam com o governo, abandonando os cargos. Flores da Cunha era simpático ao movimento – não há como negar – embora tradicionalmente tivesse lutado a favor dos governos constituídos e da ordem pública, com a única exceção, para confirmar a regra, da Revolução de 1930. Os revolucionários chegaram a reunir-se com ele no próprio Palácio do Governo, porém Flores da Cunha impusera que deveria ser comunicado em tempo hábil de deixar o cargo, a fim de não trair aquele que o nomeara Interventor.
Emissários enviados a São Paulo cruzaram o território rio-grandense em todos os sentidos e direções. Tenta-se explicar 1932 como um movimento contestatório e contra-revolucionário. Uma tentativa de revanche dos derrotados e desalojados do governo de 1930, contra os vitoriosos. Uma reação dos paulistas por terem sido destronados do poder, após tantos anos em que, na Velha República, se revezaram na presidência com os mineiros. E por último, a escolha de um paulista – Júlio Prestes – para suceder ao paulista de Macaé, Washington Luiz. Os seus antigos companheiros, líderes da Frente Única Riograndense, desejavam que ele comandasse o movimento revolucionário no Estado, em apoio a São Paulo. Mas Flores da Cunha negou-se a fazê-lo e terminou por colocar-se ao lado de Getúlio Vargas.
Explicando essa atitude, Flores da Cunha, anos mais tarde disse: “A rebelião paulista não encontra fundamento histórico, social ou político que justifique meu apoio. Fora das ambições e dos egoísmos, dos desgostos e dos ódios, por muito recalcados e que a deflagraram, nada mais aparece como fonte de inspiração para o doloroso e sangrento desvario. O nome de São Paulo, na defesa de interesses que constituísse um golpe, de força, o governo que bem entendera; e, formado esse, fui também dos primeiros a tudo envidar para que permanecesse integral, vitorioso e acatado pelo poder federal.” A revolução não refletia, assim, interesse do Estado, aspirações do seu povo, imperativo da sua economia. Não passava de hábil e inteligente manobra de politicagem inescrupulosa, exaltando sentimentos respeitáveis das populações e tomadas de surpresa na vertigem de intrigas com que, tumultuariamente, as envolveram.
Em virtude dessa atitude, exigiu ele o julgamento de sua pessoa, o que foi feito por um tribunal de Honra, integrado pelo Arcebispo de Porto Alegre, D. João Becker; pelo Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Desembargador Manoel André da Rocha; pelo Jurista José Luiz de Almeida Martins Costa e pelo Professor da Faculdade de Medicina, Heitor Annes Dias, que o absolveu. Não pode deixar de considerar que o fato de não apoiar o Movimento Constitucionalista de 1932 foi um erro de perspectiva histórica que chegou a comprometer seu futuro político. Tivesse dele participado, provavelmente, chegaria à presidência da República, pois seria o líder de maior prestígio, com um Estado poderoso como o Rio Grande, unificado, sua retaguarda.
Com o rompimento criado com o seu correligionário dr. Borges de Medeiros e com o seu partido. Flores da Cunha ficou sem uma agremiação política que lhe desse sustentação no governo. Entendeu, portanto, que era necessário reconstruir o quadro político e inclusive pacificar seus inimigos. Para isso criou o Partido Republicano Liberal, de linha progressista. Nele se abrigaram a maioria do Partido Republicano Rio-Grandense, assim como muitos chefes revolucionários de 1923 e federalistas, que não haviam participado da Aliança Libertadora de Assis Brasil, inconformados com a extinção de seu velho e tradicional partido, das lutas de 1893.
O Partido Republicano Liberal retomava velhas propostas republicanas, associadas a alguns pontos programáticos dos libertadores – abolição dos impostos de exportação e de transmissão de propriedade intervivos; redução gradual dos impostos sobre a produção agrícola, pecuária, mineira e maquinofatureira e sua substituição por impostos diretos e progressivos sobre a renda, heranças, legados, doações e terras praticamente não produtivas. Seu projeto era, porém, claramente autonomista e industrialista. Pela primeira vez, o PRL propunha avançada pauta social que refletia a nova realidade do Rio Grande do Sul e do Brasil. Defendia seguros “sociais contra a invalidez, acidentes no trabalho, moléstia, velhice, desocupação ocasional e não procurada e morte” e regime de “oito horas, no máximo, para trabalho maquinofatureiro, comercial, agrícola e mineiro, sua gradual redução à medida da eficiência maior dos processos de produção; restrição dos trabalhos noturnos; limitação dos turnos para mulheres grávidas e para as lactantes [...] proibição de trabalho maquinofatureiro e mineiro aos menores de 14 anos”.[14] 
A defesa da forma “republicana federativa” e da autonomia “dos Estados” era proposta que muito logo se chocaria com o movimento centralizador exigido pelos setores industriais hegemônicos do Rio de Janeiro e de São Paulo, posto em marcha pela Revolução de 1930 sob a direção de Getúlio Vargas. Em maio de 1933, realizaram-se eleições para a Constituinte Nacional. O novo Partido Republicano Liberal, de Flores da Cunha, com mais de 130 mil votos, elegeu treze deputados e a Frente Única, agora na oposição, obteve pouco menos de quarenta mil votos, alcançando votações expressivas apenas na Campanha. A eleição registrava que a quase totalidade do ex-PRR seguira Flores da Cunha e Getúlio Vargas, deixando o velho e superado líder Borges de Medeiros literalmente a “ver navios”. Em 12 de novembro de 1934, o PRL elegeu 21 e a Frente Única, 11 dos 32 deputados da Constituinte sulina, instalada em 12 de abril de 1935. Votaram no pleito mais de 230 mil rio-grandenses.
Registrando a nova complexidade social do Brasil e do Rio Grande, nas eleições para Constituinte rio-grandense, apresentaram-se outras listas além do PRL e da FU, como a Ação Integralista Brasileira, de corte fascista, e a Liga Eleitoral Proletária: Trabalhador, Ocupa o teu Posto, de orientação comunista. Os integralistas obtiveram votos sobretudo em Novo Hamburgo, Cachoeira, Erechim, Caxias e Montenegro, regiões tradicionais da imigração colonial-camponesa alemã e italiana,onde dominava a pequena propriedade rural, e a Liga Eleitoral, em Rio Grande, Santa Maria, Pelotas e Porto Alegre, importantes concentrações operárias.
A partir de 1935, começava o distanciamento entre Flores da Cunha e Getúlio Vargas, em agosto desse ano, Getúlio Vargas veio ao Rio Grande do Sul, por motivos familiares, e esteve em reunião com Flores da Cunha. Nessa oportunidade, fez veladas insinuações contra o Congresso e a Constituição de 1934. Entretanto, no mês seguinte, por ocasião dos festejos do Centenário da Guerra Farroupilha, novamente no sul, Getúlio Vargas foi mais explícito e teria chegado a propor a dispensa do pleito eleitoral que se aproximava. Ante o posicionamento do Governador, Getúlio Vargas logo percebera que dificilmente poderia contar com o apoio do Estado para impor suas idéias de continuísmo. [15] 
Em 1936, através de Benjamim Vargas, foi tentando articulado um impeachment no Governador, que não obteve êxito. Diante disso, a campanha contra Flores da Cunha reacendeu, com a criação de grandes e insuperáveis dificuldades para seu governo. Este, que desde o início percebera as intenções do Presidente da República, começara a preparar-se, para a resistência, importando, clandestinamente, armamento da Tchecoslováquia, famosa pela sua indústria bélica. Eram tanques e metralhadora antiaéreas, material que nem o próprio Exército Nacional possuía na época. Começou a organizar os batalhões ferroviários, solidamente armados, distribuídos em diversos pontos do Estado, dirigidos por veteranos dos antigos corpos de “provisórios”, das campanhas de 1923, 1924, 1925, 1926 e 1930.
A quantidade e a qualidade do material bélico que Flores da Cunha possuía, capaz de armar e municiar no mínimo três divisões de infantaria, fez com que o Exército se convencesse ou “fosse convencido” de que a própria segurança nacional estava ameaçada. A partir disso, foi adotada uma nova tática para afastar o Governador Flores da Cunha, que tomara atitude firme contra o golpe. Para levá-la a efeito, Getúlio Vargas usou a pressão e, concentrou grandes contingentes militares na fronteira com Santa Catarina. Depois substituiu o comandante da 3a Região Militar, nomeando para essas funções o General Daltro Filho.Finalmente, sob o pretexto do perigo comunista, requisitou a Brigada Militar do Estado. Com essas medidas que se constituíram em verdadeiro cerco, Flores da Cunha ficou privado de qualquer possibilidade de reação.
Decidiu renunciar ao cargo de Governador, o que fez a 17 de outubro de 1937, viajando para Santana do Livramento, onde atravessou a linha da fronteira com a cidade uruguaia de Rivera. Enquanto no Rio Grande do Sul o interventor general Daltro Filho ordenava a prisão de familiares e seguidores de Flores da Cunha, o governador deposto iniciava um longo período de exílio no Uruguai. José Antônio Flores da Cunha foi destituído dos títulos de General e submetido a um tribunal de Segurança Nacional, que o condenou a um ano de prisão. Além disso, seu governo foi alvo de uma verdadeira devassa. No exílio, de 1937 a 1942, não cessou de conspirar com seus amigos do Rio Grande do Sul e do Brasil, correspondendo-se e articulando-se com eles, através de emissários, que iam e vinham de Montevidéu, via Santana do Livramento. Manteve-se contato direto com lideres militares de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Neste mesmo sentido, o autor rio-grandense Ivo Caggiani afirma que: “Os parentes e amigos o auxiliaram financeiramente e mediante avais, enquanto permaneceu no exílio. Mesmo assim viu-se obrigado a vender alguns bens que possuía e que adquirira com o produto de sua atividade profissional, na sua fase áurea como advogado na fronteira do Estado”. Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, Flores da Cunha dirigiu um manifesto aos amigos e correligionários do Rio Grande do Sul. Nesse manifesto, o general exilado escreveu: “Deflagrada a guerra, não vejo como poderá o Brasil permanecer neutro”. Logo após, o Brasil declarou guerra ao Eixo Berlim-Roma-Tóquio, se aliando aos Estados Unidos, muito graças à ação de Osvaldo Aranha, secundado por Getúlio Vargas, dobrando a resistência dos generais Dutra e Góes Monteiro, favoráveis à Alemanha. No manifesto acima citado, Flores da Cunha já deixava bem claro seu sentimento em retornar ao Brasil o mais breve possível.
Segundo Lauro Shirmer : “Em 1942 ocorreu à volta de Flores da Cunha ao Brasil, disposto a retomar a vida no país, ainda que sabendo que a prisão o esperava. Quando desembarcou no Rio de Janeiro, ao ser reconhecido foi imediatamente detido pelos policiais na alfândega. Não teve tempo nem oportunidade de tentar qualquer contato com Oswaldo Aranha ou outros amigos, sendo levado para o presídio de Dois Rios, na Ilha Grande, no litoral fluminense”.
Na série de processos a que respondeu, após ter renunciado ao governo do Rio Grande do Sul e se exilado no Uruguai, Flores da Cunha acabou sendo condenado a um ano de prisão, acusado de ter comprado armamentos para a Brigada Militar a fim de enfrentar o Exército num possível conflito do Estado contra o governo federal. Exilado em Montevidéu, recusou-se a indicar defensor nesse processo, perante a Justiça, que acabaram se desfazendo, um após outro, por falta de fundamento jurídico ou de dados probatórios. Flores da Cunha reiterou, ao advogado e seu amigo Poty Medeiros, que “confiava na Justiça e aguardaria o seu veredicto, de espírito sereno, sem nada dizer ou alegar”. Poty, no entanto, na execução de precatória expedida pelo Tribunal de Segurança, foi designado para defendê-lo.[16]
Na prisão de Ilha Grande, Flores da Cunha entregou-se a duas tarefas. Relembrando as lides de campo em que também cuidara de lavouras, passou a plantar legumes e hortaliças que, pouco depois, para satisfação dos demais presos, eram servidos nas refeições do presídio. Outro passa tempo seu era escrever suas memórias da Revolução de 1923. O livro A Campanha de 1923 abre com Flores da Cunha dizendo “resolvi narrar, despretensiosamente e fielmente minha intervenção pessoal naquela luta fratricida e lastimosa”. Desde o início da revolução, aos combates que se sucederam, até a pacificação pelo Pacto de Pedras Altas, Flores da Cunha foi o comandante decisivo naquela guerra entre chimangos e maragatos, em mais de 200 páginas deixou um completo depoimento sobre esse episódio marcante da história do Rio Grande do Sul.
Depois de cumprir nove meses de prisão, em maio de 1943, foi indultado pelo Presidente Getúlio Vargas, fato que o desagradou muito, pois faltavam apenas noventa dias para o integral cumprimento da pena. Terminada a 2a Guerra Mundial, com a rendição incondicional das Potências do Eixo, e o retorno da gloriosa Força Expedicionária Brasileira-FAB, não era mais possível manter a situação interna do país, em notória contradição com os países democráticos vitoriosos na conflagração universal. Em virtude dos movimentos de contestação ao regime ditatorial de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945, com a sua queda e a entrega do Governo da União e dos Estados ao Presidente do Supremo Tribunal Federal e aos Presidentes dos Tribunais de Justiça. Voltando ao Brasil à normalidade democrática, realizaram-se as eleições na data marcada, isto é, a 2 de dezembro de 1945, sendo eleito para a suprema magistratura da nação o Marechal Eurico Gaspar Dutra. José Antônio Flores da Cunha, filiado à União Democrática Nacional – UDN – partido que ajudou a fundar, apoiou a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos últimos sobreviventes dos “Dezoito do Forte de Copacabana”.
Participou destacadamente da campanha eleitoral elegendo-se Deputado da Assembléia Constituinte, para o período de 1946-1950. Reeleito, com expressiva votação em outubro de 1950, continuou a desenvolver atividades parlamentar movimentada. Em 1954, sempre pela legenda da União Democrática Nacional, conquistou a sua terceira reeleição sucessiva. Com o suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, o vice-presidente Café Filho assumiu o Governo. Para substituí-lo em outubro de 1955, foi eleito Presidente da República o mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, e a vice o gaúcho João Goulart. Entretanto, a partir daí, teve início uma campanha contra a posse dos eleitos, da qual o jornalista Carlos Lacerda era um dos líderes. Um mês após as eleições, Café Filho, por motivos de saúde, afastou-se do governo. Como seu substituto legal, assumiu o Deputado Carlos Luz, Presidente da Câmara dos Deputados, que passou a ser presidida pelo Vice-Presidente, o Deputado José Antônio Flores da Cunha.
Em 11 de novembro de 1955, ante a iminência de um golpe, a Câmara votou o impedimento de Carlos Luz, assumindo em seu lugar de acordo com a Constituição, o Presidente do Senado, Nereu Ramos. Dez dias depois a situação tornou a agravar-se. Café Filho pretendeu reassumir a Presidência da República, numa nova manobra que tinha como finalidade impedir a posse de Juscelino Kubitschek. A câmara dos Deputados, conduzida pela mão firme de Flores da Cunha, votou o impedimento de Café Filho. A legalidade e a democracia ganhavam, assim, uma grande batalha. Finalmente, abandonado pelo partido, sem contar com a solidariedade dos parentes e companheiros, que sempre o haviam acompanhado, tanto no governo, como no ostracismo e no exílio, aceitou a candidatura a deputado federal que lhe foi oferecida pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Este, porém, não se elegeu, em 1958, ficando na quarta suplência. Pouco depois, com o licenciamento de alguns titulares e suplentes, assumiu sua cadeira para cumprir o último mandato, que não chegou a concluir.[17]
Uma das últimas homenagens que ainda recebeu em vida foi a outorga da comenda de Grande Oficial do Mérito Militar, no QG do III Exército em Porto Alegre. O mesmo quartel que ele tomou comandando o ataque que deu início à Revolução de 1930 tornou-se cenário, em maio de 1959, de uma cerimônia comovente. O general Flores da Cunha faleceu ao fim da tarde do dia 4 de novembro de 1959, no Hospital Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre, vitimado por insuficiência renal. Sua irmã Sinhá e dona Irene o acompanhavam. Irene não podia vê-lo: vítima de glaucoma, ela estava havia muitos anos cega.
Tão logo foi espraiada a notícia, o governador Leonel Brizola ofereceu o salão nobre do Palácio Piratini para que ali, onde durante sete anos Flores da Cunha construiu um novo projeto para o Rio Grande do Sul, fosse velado seu corpo. Junto com a decretação de luto oficial por três dias, Brizola assinou ato restabelecendo ao Instituto de Educação o nome de Flores da Cunha, tirado pela mesquinhez de Getúlio Vargas ao implantar a ditadura do Estado Novo, em 1937. Com uma guarda de honra de cadetes da Brigada Militar, em uniforme de gala, o corpo coberto por um poncho e seu lenço branco, e as bandeiras do Rio Grande e do Brasil sobre o esquife, começou naquela noite uma impressionante visitação que se estendeu até a manhã do dia 5. O vice-presidente da República, João Goulart, e o governador Brizola passaram a noite junto ao caixão, numa homenagem compartilhada por todos os gaúchos.
Um piquete de cavalarianos acompanhou o cortejo fúnebre até o aeroporto salgado Filho, onde começaram as despedidas com o discurso de Itiberê de Moura em nome do Instituto dos Advogados. Um avião especial da Varig, levando também Rubem Berta, presidente da empresa aérea que Flores da Cunha ajudara a salvar em 1932, transportou o ataúde a Santana do Livramento. Do salão nobre da prefeitura, com os sinos da Matriz da cidade dobrando lenta e demoradamente, o carro fúnebre, acompanhado por milhares de santanenses e uruguaios de Rivera, seguiu até o cemitério municipal, onde teve lugar o sepultamento no jazigo da família. Ficou a cargo de Francisco Brochado da Rocha, que no 3 de outubro de 1930 foi ferido acompanhando Flores da Cunha no ataque ao QG do Exército (e depois seria primeiro-ministro no governo parlamentarista de Jango Goulart), falar em nome do governo do Estado e da presidência da República.
Flores da Cunha morreu como queria. Pouco tempo antes, em seu último discurso na Câmara Federal, sentindo que lhe fraquejavam as forças e sua vida estava chegando ao fim, anunciou: “Quero morrer no Rio Grande do Sul, beijando as coxilhas”. A morte de Flores da Cunha não constituiu apenas a sua consagração nos pagos do caudilho. Do Brasil inteiro ecoaram manifestações engrandecendo sua memória. O presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, iniciou pronunciamento dizendo: “Perde o Brasil uma das suas maiores expressões políticas, e o Rio Grande do Sul um de seus filhos mais eminentes. A memória do grande brasileiro, pelos relevantes serviços prestados à nação, seja no parlamento, seja no exercício de cargos executivos, há de permanecer bem viva na consciência de todos”. Entretanto, o seu nome – que Getúlio Vargas tentou apagar da nossa história – havia sido recolocado no Instituto de Educação, por ele construído, e passou a aparecer no Palácio do Tribunal de Contas, por ele criado, uma entre tantas instituições com que ele estabeleceu a estrutura administrativa do Estado.
Seu nome está presente em logradouros de cidades de todo o Rio Grande do Sul, mas há uma falta imperdoável a exigir reparação. Neste mesmo sentindo Lauro Schirmer volta a questionar: “Não é admissível que no Palácio Piratini, repleto de bustos e placas lembrando políticos gaúchos, não haja sequer uma homenagem ao homem que foi, sem sombra de dúvida, o maior governador deste Estado. Um esquecimento injustificável que clama por reparação. Da mesma forma é inconcebível que a capital gaúcha, sede da Universidade criada por Flores da Cunha e herdeira de tantos legados dele, como o Parque Farroupilha, tenha dado seu nome apenas a uma ruazinha de dois quarteirões no distante bairro de Belém Novo”. José Antônio Flores da Cunha não só deve ser nome, na capital gaúcha, de logradouro público à sua altura. Precisa ter seu busto colocado na galeria de honra do Palácio Piratini, entre os grandes construtores do Rio Grande. Até porque, foi o único a implementar um projeto desenvolvimentista e autonomista para o Rio Grande do Sul.


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